Aquele bom e velho clichê que diz “a gente é o que a gente come” nunca fez tanto sentido para nossa família. Somos o que comemos e comemos o que pensamos, o que buscamos, o que cuidamos e o que acreditamos. Isso quer dizer, pra nós, que cuidar da alimentação é algo que rompe as arestas da saúde e invade questões políticas, éticas, e tantas outras de consciência maior que a do corpo físico. É como se fosse um dominó, onde uma peça instável desestrutura as demais e coloca tudo por água abaixo, perdendo todo sentido da alimentação como alimento da alma também.

Nossa família começou esse processo há muitos anos atrás, quando deixamos de lado todo tipo de carne por entendermos que não somos compatíveis com a ideia de comer seres vivos mortos. O vegetarianismo, como qualquer outra ideologia, rótulo, movimento, seja lá o que for, gera um mundo de discussões polêmicas que não me cabem aqui. Nos bastou sentir nosso corpo confortável com essa decisão, nossa saúde estável, para assumir essa postura e viver em paz com ela, respeitando todo ser que opta pelo contrário e é feliz com suas escolhas. Aprendemos aqui muito sobre o respeito pelo outro, seja ele uma vaca ou nosso vizinho.

Depois passamos a entender e nos apaixonar pelo desafio de plantar o próprio alimento, uma vez que sem a carne é importante que saibamos manter o equilíbrio que o corpo precisa para se manter forte. Foi (e ainda é) lindo por demais!  Deixamos pra trás gastos econômicos, doses cavalares de agrotóxico, mercados injustos com produtores rurais e mais um tanto. Recebemos em troca alimento saudável e, o mais importante pra nós, começamos uma relação infindável e imensamente gratificante com a terra, com a natureza. Alguém lá atrás já disse que plantar o próprio alimento é a revolução que poderia salvar esse mundo doido. Aprendemos aqui também muito sobre a natureza, quanto mais cuidamos dela, mais ela provê a abundância do que precisamos.

Já sem a carne e colhendo o que vai pra mesa, nos bateu a porta questionamentos sobre o veganismo. Toda escolha é uma despedida e essa foi um pouco mais “doída”. Ser vegano é uma postura ética, acima de tudo, e não menos polêmica do que o vegetarianismo. Isso quer dizer que optamos por substituir o queijo, leite, iogurte, ovo e tudo mais que precisa romper o ciclo genuíno da natureza para que esteja na nossa geladeira. Mas não optamos pelo radicalismo extremo, ainda tomamos um sorvete quando o desejo pede, ainda comemos um ovo caipira quando as crianças querem e somos em paz com isso. Aprendemos aqui também muito sobre nossa capacidade de reinventar com criatividade hábitos alimentares e que, por vezes, abrir mão de um prazer sensorial em prol de um bem maior é tão prazeroso quanto.

E, quando nos perdemos nas prateleiras do supermercado, passamos batido nas empresas que exploram gente, que maltratam bichos para testes, que desmatam, que percebem a natureza como fonte inesgotável de exploração sem os cuidados que ela merece enquanto parte de nós mesmos. Aprendemos aqui também que nada nem ninguém é insubstituível e que um pouco do que se faz em casa pode refletir na casa maior que é o mundo inteiro. A consciência do todo, do uno.

Sinto que ainda falta um bocado para sermos plenos no que acreditamos nessa imensidão que é se alimentar e ser o que se come, mas seguimos caminhando com tranquilidade, clareza e respeito, ouvindo sempre as respostas imediatas dos nossos corpos e mentes. Bem lá no fundo, o que eu vejo mesmo é uma beleza sem fim ao perceber que nada disso faz sentido se não houver amor e respeito pela diversidade, pelo outro, pela natureza. Eu seria capaz de morrer de indigestão se fosse a diva da alimentação saudável e julgasse as escolhas opostas das outras pessoas ao meu redor, pode apostar!

*Manu Melo Franco é companheira do Hugo, mãe do Tomé e da Nina, aquariana de asas largas, cabeça dura, pés sujos de terra e dona de uma vontade absurda de ser boa parte da mudança que quer ver nesse mundo de meu Deus! Ela colabora com o Projeto Contrafluxo com suas histórias, imagens e sentimentos. Seu blog pessoal é o Notas Sobre Uma Escolha e seu Instagram é @manumelofranco

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