Você é capaz de amar plenamente?


A essência da gente é que nem rio que corre pro mar, uma infinidade de coisas ali, fixas na fluidez do seu movimento. E tudo o que ali há e está respira, pura e simplesmente, amor. Por mais que o mundo cruelmente nos obrigue a esquecer disso, nossa essência é o amor.

O pobre coitado do amor nos foi "apresentado" desde sempre com a roupa que escolheram pra facilitar (ou não) as coisas entre nós, a roupa rosa do romantismo e suas mil amarras e costuras tortas. E assim passamos bom tempo de nossas vidas, ou toda ela, sufocando esse sentimento e ficando com cara de pavor quando alguém fala que vive livremente o amor. Daí surgem os rótulos socais carregados de julgamento que a gente insiste em colocar nas coisas pra boicotar a quebra do padrão e voltar pro equivalente: o amor livre, o poliamor, a relação aberta, a putaria. Só que, na real, o amor não cabe em termos ou contratos sociais. Nós é que tememos sua imensidão e navegamos covardemente pela sua superfície. Amar plenamente é, talvez, o maior e mais intenso de todos os desafios dessa vida bandida. É jogar pela janela toda aquela parafernália que tá arraigada no peito e latejando no ego há anos.

Há um tempo atrás escrevi em nosso blog sobre como vivemos isso aqui em casa e a vida virou um inferno. Era muita gente ali, algumas curiosas metralhando perguntas "práticas" e indiscretas, outras contando também suas experiências pessoais, gente admirando e se inspirando, a maioria das pessoas nos atirando pedras e julgando. Essas últimas eram as que eu mais gostava de ler, é incrível como o julgamento é sempre a primeira porta aberta para sair correndo quando a gente se sente ameaçado pela diferença do outro. Mas a intenção do expor isso aos quatro cantos era muito essa mesmo: sacolejar ombros, nos questionar e questionar as pessoas, perder o controle do já estabelecido, navegar em mar aberto e desconhecido, nos jogar em queda livre sem medo. E, pra colocar sua vida amorosa e sexual na cara dos outros, você precisa estar pronto pra receber o que eles devolvem. Eu posso não concordar com o que você diz, mas defendo até a morte o seu direito de dizer, coisa linda que me ensinou Victor Hugo.

Eu e meu companheiro fizemos uma escolha: buscar dentro de nós os caminhos que nos levam ao amor genuíno, esse que é o oposto do contrato, da posse, do ciúmes, do compromisso social. E isso implica em tanta coisa que nem cabe aqui, são desafios diários, são diálogos sem fim, são exercícios internos rotineiros, são experiências ímpares, são dores e alegrias incontáveis, são questionamentos incansáveis, são dois seres largando na beira da estrada uma mala cheia de peso e seguindo viagem de braços vazios pra sentir o vento soprando liberdade (não, eu não sou 100% descolada nesse processo ainda, a prática de toda essa teoria ainda é um caminho florido e árido pra pessoa que vos fala!).

E hoje, passado o "frescor" dessa escolha atrevida, conseguimos enxergar melhor muita coisa. Tem hora que é uma merda, tem hora que a gente se perde dentro da gente mesmo e do outro, tem hora que parece estar tudo errado, tem hora que pensamos como seria se fosse tudo como antes. Daí percebemos que esse momento é a consequência de uma armadilha do ego tentando colocar toda a imensidão do amor dentro da quebra de um compromisso social, sexual e afetivo. As liberdades do amor (e de tudo nessa vida) não se resumem a se relacionar ou não com outras pessoas fora do “casamento”. O rótulo do amor livre gera um mundo de más interpretações nesse sentido e tantas relações abertas dão errado por causa dessa expectativa traiçoeira. É preciso cuidar de tudo, de todas as inúmeras gavetas do amor, nenhuma delas é mais importante que a outra, o equilíbrio é que faz a dança de qualquer relacionamento ser harmônica. O amor livre não salva casamentos pelo mundo, muito pelo contrário, ele pode aprisionar muita gente que busca (erroneamente) ser livre a todo custo. A liberdade mora dentro da gente, ela vem da necessidade do oprimido e não do desejo do opressor.

Percebo que nada disso tem regras ou fórmulas, certeza de que assim dá certo, é melhor ou pior do que de outro jeito, vale ou não a pena. Entender que você não pode ser o único responsável pela felicidade da pessoa que se ama é uma clareza ardida. Mas é óbvia, quando feita guiada pelo amor mais puro, pelado daquela roupa rosa, romântica e cheia de medos tortos. E, conscientes desse entendimento,  cada um navega seu barquinho como bem entender, o que vale é estar feliz, ter consciência, confiança, respeito e dar ao amor a liberdade íntegra que lhe cabe.

Amar plenamente é, na minha consciência e no meu coração em paz, ir de encontro à essência do meu espírito. E, viajar pra dentro, buscar ser melhor pra si mesmo, pro outro e pro mundo inteiro é passagem longa de ida sem volta. O caminho é lindo e não é fácil, nunca esperei que fosse. Mas é justo, é coerente com o que eu acredito e quero ser para mostrar à Tomé e Nina. O amor e a vida são aqui e agora, quanto antes a gente atingir a clareza do que nos faz pleno, mais tempo a gente tem pra desfrutar e celebrar a plenitude de tudo. Então, que sejamos cada vez mais o amor que temos em nós, honrando sempre a pureza e a liberdade do que ele é e a certeza do quão melhores somos com e por ele.

*Manu Melo Franco é companheira do Hugo, mãe do Tomé e da Nina, aquariana de asas largas, cabeça dura, pés sujos de terra e dona de uma vontade absurda de ser boa parte da mudança que quer ver nesse mundo de meu Deus! Ela colabora com o Projeto Contrafluxo com suas histórias, imagens e sentimentos. Seu blog pessoal é o Notas Sobre Uma Escolha e seu Instagram é @manumelofranco

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