Em busca da tão sonhada liberdade


Durante um bom tempo, principalmente quando ainda vivia cercada de prédios e buzinas de carros, acreditei que liberdade era sinônimo de morar no mato e andar descalço. Sinto que, nesse tempo, eu sacava bem das prisões rotineiras que vivia, mas ainda nadava muito na superfície do mar aberto e turbulento que é ser uma pessoa realmente livre. Eu sabia que trabalhar de oito as oito não era liberdade, que ficar presa no trânsito não era liberdade, que ter que fazer o que não se gosta pra ter grana e poder pagar contas não era liberdade, que fazer cara de paisagem para poder agradar aos outros não era liberdade e dai vai. Tudo isso e mais um monte me cortavam feito faca afiada e deixavam meu peito inquieto, mas era tanta correria e “distração” do mundo lá fora que mal dava tempo de pensar em sair dessas prisões, sempre tinha um trampo com deadline apertado pra entregar ou uma fila de banco pra resolver primeiro.

Daí um dia a gente tem um surto maravilhoso e decide jogar tudo pro alto e ir morar no mato, acreditando que estaria assim conhecendo de perto a beleza da tal liberdade sonhada. E de fato um primeiro passo foi dado, abrimos as portas da prisão e isso já nos fazia respirar mais aliviados. Fora de algumas grades da constância da vida adulta nas grandes cidades a gente tem a riqueza do tempo rei, esse que permite ir pra praia na terça-feira a tarde, que deixa a gente brincar com as crianças o quanto quiser, que proporciona tardes de café e boa prosa com os vizinhos. Mas essa reconquista da autoridade sobre o tempo dos dias também carrega em si o espaço de um vazio. Como não se tem mais tantas obrigações geradas pela rotina agitada, a gente cai pra dentro do peito.

Assim começa uma viagem interminável rumo ao auto conhecimento, rumo a própria essência por vezes empoeirada ou adormecida. Acho que todo mundo que saiu da cidade para morar na calmaria entende bem esse processo. Foi aí que fui, aos poucos, chegando mais perto do que eu precisava, imaginava e queria enquanto uma pessoa livre. Apesar de morar no mato e andar descalça ainda gritava em mim a liberdade de fazer o que se quer, na hora que se quer, como e com quem se quer. E isso é difícil quando se tem dois filhos com demandas intensas em casa 24h por dia. E vi que eu ainda sonho com a liberdade.

A liberdade de ir e vir quando se mora geograficamente longe de tudo. A liberdade de fazer as próprias escolhas quando se vive em comunidade e se preza pelo bem estar de todos juntos. A liberdade de ser mulher e tudo o que isso envolve quando seu sagrado feminino pula acordado depois de tempos adormecido. A liberdade de amar a você mesmo, ao outro e como isso dança ou esbarra nos limites, tempos, espaços e respeito ao amor das pessoas. A liberdade de se permitir fazer escolhas “ousadas” com consequências carregadas de risco eminente quando toda a sua construção cultural são muros rígidos. A liberdade de expressar tais escolhas e viver tais consequências sem a porcaria da culpa. A liberdade de se permitir, de respeitar sua essência, de ser a coerência em linha reta entre o que se é, o que se faz e o que se quer ser.

Tanta liberdade, centenas de dúvidas, todas as respostas dentro da gente. A liberdade é um sentimento tão bonito que se disfarça de utopia para fazer com que as pessoas nunca desistam de caminhar em sua direção. E os caminhos são, muitas vezes, mais importantes do que a chegada. Perceber que você não é livre em tudo o que se quer é duro, saca? Mas, ao mesmo tempo, esse reconhecimento é um grito alto do peito que vibra no corpo inteiro e saculeja os ombros da gente. Esse movimento então nos empurra rumo a uma ação de mudança que requer coragem, e coragem é o coração da gente sendo guerreiro e doando sua maior verdade.

Toda vez que paro para devaniar sobre os lugares que habitam minha liberdade tomo uma paulada na orelha porque sempre encontro um excesso ou uma escassez, mas ainda assim consciente de que o (meu) mundo muda a cada passo que dou, a cada beirola de liberdade que acrescento no meu ser. Viver no contrafluxo, se essa escolha vem do coração, é sim um “ato” libertário. Mas ele não basta pra nos tornar pessoas livres, ele é apenas o começo de um novelo de la enorme e cheio de cores, esse com o qual a gente pode tecer tramas incríveis de auto conhecimento. Ser livre é alguma coisa que ainda não faço ideia da imensidão e intensidade, apesar de ter boas pistas. Talvez um dia, quando a gente sair da pira de ser livre a todo custo, consigamos chegar um cadinho mais perto de nós mesmos, da liberdade de apenas ser gente, o que é outra alegria, diferente das estrelas.

*Manu Melo Franco é companheira do Hugo, mãe do Tomé e da Nina, aquariana de asas largas, cabeça dura, pés sujos de terra e dona de uma vontade absurda de ser boa parte da mudança que quer ver nesse mundo de meu Deus! Ela colabora com o Projeto Contrafluxo com suas histórias, imagens e sentimentos. Seu blog pessoal é o Notas Sobre Uma Escolha e seu Instagram é @manumelofranco

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