Natal com sentido e sem gastar uma fortuna


Aos cinco anos o natal era Papai Noel e presente na árvore emperequetada. Aos 10 era amigo oculto na escola com coxinha e guaraná. Aos 15 anos era a obrigação chata do jantar em família. Aos vinte e poucos a deprê de banquetes fartos e cheios de culpa pela miséria do mundo lá fora. Aos 30 a balada animada depois da ceia. Aos trinta e poucos os almoços divertidos na casa da matriarca da família com parentes que só se viam naquele dia e a pergunta incansável: porque não é assim todo domingo? Hoje, aos 36, o natal não é nada porque já foi tudo, o que , lá no fundo, não era nada de natal.

Celebrar por inércia, porque já é uma "regra", porque é feriado, porque todo mudo faz, porque a gente fez desde que nasceu mesmo sem saber, ignorando ou retorcendo os reais motivos de tais comemorações. Não só o natal, mas muitas outras datas comemorativas do nosso calendário anual, são hoje rasteiras do capitalismo nas pernas da crença do outro. 

Aqui em casa não celebramos o natal, as crianças sabem a verdade sobre a mentira do "bom velhinho", não esperamos pelo coelho da páscoa, não nos damos presente de dia dos namorados, os aniversários são celebrados sem parabéns e com rodas de amigos amados. E não deixamos de celebrar por pirraça ou por anarquia total, mas porque nos questionamos em relação à estes rituais e percebemos que não fazem mais sentido pra gente há um bom tempo. Entendemos que desconstruir este calendário comemorativo era importante por dois motivos: o primeiro é não sermos mais condizentes com as tramóias do consumismo e nos libertar de comprar e comprar toda vez que é hora de comemorar. O segundo é ter a chance de olhar pras coisas que realmente acreditamos ser dignas de celebração e (re) inventar seus rituais. Comemoramos as estações da natureza, as luas, os fechamentos e inícios de ciclos importantes, os nascimentos, uma conquista almejada, os desafios bem sucedidos, o amor rotineiro. Não mais nos atemos à datas designadas por sei lá quem para isso, celebramos o que queremos, quando e como sentimos de fazê-lo. 

Dessa forma rompemos mais uma aresta da caixinha que nos enquadrava no fluxo do sistema e ganhamos muitos mais motivos/dias para celebrar com sentido e sem gastar grana. Também percebemos, neste momento, a importância dos rituais e como acreditávamos neles de maneira equivocada. Honramos e respeitamos todos os tipos de cerimônias e rituais dessa vida, desde que realizados com amor, respeito e verdade, seja qual for a crença que perpetua ali. Mas descobrimos também que existe mágica nos rituais rotineiros, esses que acontecem em família, em solidão, com amigos ou vizinhos, que não carecem de dia ou hora marcada, que não precisam ser guiados por um guru, que não se prendem à um templo sagrado.

Sagrados são também os rituais que têm nossa essência e nosso espírito como guardiões, que acontecem sem avisar na força daquele agora, no templo mais bonito de todos que é o nosso próprio corpo e consciência. Esses são vividos e celebrados com muita gratidão, a força motriz que move o universo a favor de quem busca ser e fazer o bem pra esse mundo. 

Nosso dia 25 de dezembro vai ser um dia como qualquer outro, com todo respeito ao que a religião desenhou para essa data. Nós preferimos celebrar o ano novo, desde todos os perrengues necessários que 2016 nos trouxe até  a queda do primeiro dente de leite de Tomé há um mês atrás. Em família, que é nossa casa e nosso templo mais sagrado, também celebraremos e saudaremos tudo o que vem nos próximos 365 dias. Da forma mais simples e verdadeira possível, com roupa preta ou branca, na praia ou em casa, com música ou ao som dos passarinhos, com foguete ou fogueira, com banquete ou banana na brasa com canela. Quando o coração da gente vibra forte o amor, há celebração e gratidão em tudo o que há.

*Manu Melo Franco é companheira do Hugo, mãe do Tomé e da Nina, aquariana de asas largas, cabeça dura, pés sujos de terra e dona de uma vontade absurda de ser boa parte da mudança que quer ver nesse mundo de meu Deus! Ela colabora com o Projeto Contrafluxo com suas histórias, imagens e sentimentos. Seu blog pessoal é o Notas Sobre Uma Escolha e seu Instagram é @manumelofranco

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