Quanto de dinheiro é preciso pra largar tudo e viver uma vida simples sem dinheiro?


Essa talvez seja a pergunta mais recorrente em nossas caixa de email desde que decidimos nos aventurar na maré do contrafluxo. E, até agora, a resposta mais objetiva, dura e realista que encontramos foi: não existe viver sem grana, por mais simplicidade que a gente queira ter e ser. Seria uma utopia viver 100% fora do sistema e ser feliz com isso, aí é que mora toda a mágica da coisa, espia só. Uma utopia é sempre um 'lugar' inatingível mas, ao mesmo tempo, é sempre um caminho a ser percorrer. Sendo assim, sua razão de existir enquanto algo difícil e incansável é exatamente o desejo de alcançá-la, a força que movimenta os braços para seguir remando, a utopia é então um caminhar esperançoso e não uma chegada.

Durante este pouco tempo que estamos tentando reestabelecer nosso casamento com a bufunfa, muita coisa aconteceu e diferentes clarezas foram de suma importância para que pudéssemos seguir trilhando o caminho da simplicidade, da auto suficiência e do desapego (nenhuma delas veio de detrás do arco-íris, vieram de experiências fortes e perrengues desafiadores). Algumas compartilho aqui:

- a ordem dos fatores altera e muito o resultado, é a gente que manda no dinheiro e não o danado que controla a gente;

- viver a simplicidade não é viver faltas, restrições ou abstinências, mas tem muito de rever as nossas reais necessidades e dar de cara com um caminhão de excessos e vontades inventadas pelo capitalismo/publicidade. A maioria deles não nos vale muita coisa, a não ser muitas moedas perdidas em troca de um suposto 'eu preciso'; 

- há de ter criatividade pra reinventar, substituir, criar, reciclar e se desafiar na desconstrução dos velhos/construção dos novos hábitos e possibilidades que moram na simplicidade da rotina. Antes tinha requeijão de supermercado, hoje tem creme de mandioca feito na cozinha de casa com as crianças;

- existem outras moedas com as quais podemos adquirir o que não produzimos, a troca veio ao mundo pra fazer a gente enxergar o quanto mais amorosa e leve pode ser a energia do 'comércio'. Brinquedos, roupas, sapatos, utensílios domésticos e até serviços, passeiam em feiras de troca pela cidade, em casa de vizinhos, amigos e brechós. Dessa forma incentivamos a economia solidária e fazemos girar tudo aquilo que não nos serve mais, mas pode ser bem útil para o outro;

 - quanto mais a gente produz o que precisa para viver, mais a gente economiza e tem um troco de sobra pra viajar ou investir em coisas que precisam da santa moeda pra existir, como um dentista, por exemplo. Uma horta em casa não quer dizer dinheiro entrando na caixinha, a não ser que eu produza excedentes para venda. Mas, deixando de ir ao sacolão toda semana, a bufunfa que gastaria ali vira economia a ser aplicada em outros 'lugares'. E isso vale para os cosméticos naturais da família, para alguns brinquedos das crianças, para a educação delas, para as roupas costuradas por nós mesmos, para o lixo orgânico que vira adubo e para muito mais;

- 'entregar, confiar e agradecer'. Esse quase mantra é sagrado nos dias de quem vive a prática da simplicidade e tem na frente do coração a vontade de SER bem maior do que o desejo de TER. Uma vez, quando ainda morávamos na Chapada Diamantina e estávamos começando essas descobertas, passamos por um perrengue histórico do qual nunca me esqueço. Contávamos com o pagamento de um freela feito para abastecer a casa e ele não aconteceu. Ainda não tínhamos a horta em plena produção e nos sobravam apenas R$7,00 na conta do banco para passar o mês. Claro que eu me descabelei, surtei e bati cabeça na parede para tentar mudar esse cenário, faltar comida em casa era algo que nunca havia acontecido. Quando olhava pra frente, buscava mais trabalho, tentava encontrar solução, não via nada, parecia que todas as portas estavam fechadas naquele momento. Foi então que, meio que por falta de opção, cedi aos conselhos e à calmaria do Hugo, que me dizia com uma certeza invejável que tudo iria dar certo, eu só precisava confiar. Relaxei o máximo que pude durante um só dia, o suficiente para o universo fazer sua parte e me trazer a clareza que precisava. Na manhã seguinte recebemos a visita de Dona Zi, a senhorinha da fazenda ao lado que nos trouxe o excedente da sua horta, cestinha cheia de abóboras, tomates, brócolis e mais um monte de alimentos frescos. Depois veio mais um vizinho, outro amigo, o cara da fazenda da frente, cada um com um pouco do que produzia e encheram nossa dispensa com tudo do bom e do melhor. Ninguém sabia do nosso perrengue, mas todo mundo sabia que compartilhar o que se tem é a melhor maneira de gerar abundância. Terminamos o mês com os mesmos sete contos na mão, mas com a barriga cheia e o entendimento de que é preciso confiar e agradecer, o universo tá sempre ali pronto para fazer a sua parte quando acreditamos em sua/nossa força.

E tem muito mais coisas, muitas delas ainda estamos desdobrando entre um tapa na orelha e outro. Nossa família vive, há anos, de fazer trabalhos freelancer pela internet, somos jornalistas e fotógrafos. Essa escolha faz parte da busca por sermos livres de escritórios e horários que não nos cabem mais, assim como não estarmos presos geograficamente a nenhum lugar. Ser freeela quer dizer ter grana aqui, não ter logo ali, hoje muito, amanhã nada. Um rebolar constante que fica ainda mais complicado pra gente que não é nem um pouco esperto com o tal do dinheiro. Mas nunca faltou nada, estamos sempre tentando melhorar essa relação, cientes de que cada coisa ocupa um lugar de importância e a grana nunca vai falar mais alto do que outras descobertas que o dinheiro não paga.

Hoje estamos, exatamente neste momento das nossas vidas, tentando organizar melhor a casa onde habita este casamento com a moeda. Sentimos que temos muitos planos de viajar, precisamos terminar nossa casa, muita coisa que ainda carece de grana. Sentimos também que todos esses anos nos mostraram que viver com pouco dinheiro não pode significar viver privações, que a simplicidade não é plena quando não está ao lado da felicidade, uma coisa não faz sentido sem a outra.

O mais importante de tudo, pra gente, é saber o lugar que o dinheiro ocupa em nossas vidas, seus porquês, sua intensidade, o controle que temos sobre ele e não o contrário. A beleza de tudo nessa vida bandida mora no equilíbrio, é ele que nos faz pleno nas relações com tudo e todo mundo. Porque, no final das contas, o que a vida quer da gente é coragem pros desafios de cada esquina. E, talvez, o maior desafio de uma vida simples seja entender que a grana não é uma vilã dentro desse contexto, muito pelo contrário. O importante é olhar pros ensinamentos alcançados e seguir confiante na certeza de que dinheiro é um pedaço de papel que a gente não leva pro céu.

*Manu Melo Franco é companheira do Hugo, mãe do Tomé e da Nina, aquariana de asas largas, cabeça dura, pés sujos de terra e dona de uma vontade absurda de ser boa parte da mudança que quer ver nesse mundo de meu Deus! Ela colabora com o Projeto Contrafluxo com suas histórias, imagens e sentimentos. Seu blog pessoal é o Notas Sobre Uma Escolha e seu Instagram é @manumelofranco

 

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