Leve como uma nuvem no céu


Quando era pequena, nunca soube responder o que 'queria ser quando crescer', quando essa pergunta cruel me era derramada pela boca de um adulto. Na verdade, eu respondia a mim mesmo, em silêncio, que queria ser nuvem, fosse lá o que isso fosse, era cheio de leveza e liberdade.

Nunca fui nuvem, mas também nunca deixei que o tempo levasse do meu peito o desejo quase obsessivo por ser livre e leve. A constância da vida adulta me fez formar em Jornalismo, me pós graduar em fotografia, trabalhar como produtora, viver em Londres, me aventurar por seis anos em SP, fazer freela aqui e acolá, me virar nos trinta e mais algumas muitas coisas nesses 36 anos de estrada. E, tendo o universo como bom amigo, também encontrei o clichê do amor da vida e tive dois filhos incríveis. Também nesse momento, decidi dar um passo atrevido em busca da liberdade que vibrava em mim. Isso quer dizer romper as barreiras de toda uma construção social, deixar espaços geográficos urbanos, desconstruir padrões rígidos e sem sentido, derrubar muros de segurança, reinventar a relação com grana, me arriscar no desconhecido, colocar em prática a teoria da sustentabilidade e da permacultura, eleger a simplicidade como prioridade, morar no mato, aprender a olhar pra dentro sem medo, reconstruir o tempo, reinventar a vida inteira.

Em 2013 eu e minha família largamos 'tudo' em Minas Gerais e nos mudamos para a Chapada Diamantina/BA. Vivemos ali 365 dias intensos de metamorfoses, desapegos, conflitos, aprendizados importantíssimos sobre nossas relações e sobre a natureza, de tanta coisa que nem sei falar. E vivemos também a certeza de que precisávamos de trocas maiores com outras pessoas, o tempo rei nos trouxe esse sentimento e seguimos viagem rumo a um segundo passo desafiador: a vida em comunidade. Então seguimos viagem para um ecocentro no interior de Goiás, um lugar onde as pessoas respiravam permacultura e bioconstrução. Bingo! Mais dez meses de aprendizado, de descobertas sobre nós, sobre o outro, sobre a natureza. Depois disso, a vida cigana soprou a gente para a Bahia de todos os santos, mais uma vez. E aqui estamos nós, vivendo em uma fazenda com mais outras oito famílias, bionconstruindo uma casa de barro e telhado verde, plantando uma horta comunitária, educando nossas crianças em coletivo, em casa, com consciȇncia, liberdade e leveza bem como aquela nuvem que eu sempre quis ser.

Nem tudo é um mar de rosas, mas é tudo como a gente escolheu que fosse. Somos livres de muita coisa que quisemos nos desfazer, somos inteiros na simplicidade do que vivemos, somos felizes por podermos escutar sempre o coração, esse que nos guia com coragem pelas trilhas desafiadores da sustentabilidade, auto suficiȇncia, da liberdade que grita no peito e mais um bocado de coisas, ufa!

Esse caminho todo para poder contar um pouco da minha história, para tentar mostrar um bocado do que mora em mim, para abrir este espaço que, daqui em diante, vai acolher alguns devaneios de alguém que queria ser nuvem e agora sabe menos do que sabia nessa época da vida.

Muito prazer, eu sou Manu, companheira do Hugo, mãe do Tomé e da Nina, aquariana de asas largas, cabeça dura, pés sujos de terra e dona de uma vontade absurda de ser boa parte da mudança que quer ver nesse mundo de meu Deus!

*Manu Melo Franco é colaboradora do Projeto Contrafluxo com suas histórias, imagens e sentimentos. Seu blog pessoal é o Notas Sobre Uma Escolha e seu Instagram é @manumelofranco

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