Costumo sentar-me à porta de minha casa e ficar observando a vida que passa pra lá e pra cá. Penso sempre que a vida é um rio sem fim. Acostumei-me a ser paciente com as coisas não resolvidas em meu coração, sem procurar respostas que não pudessem ser dadas. Pois, na verdade, eu mesma não teria capacidade de vivê-las. Explicações inteligentes e satisfatórias, muitas vezes, tornam-se conhecimentos mortos, tolos e corremos o risco de tornamo-nos estúpidos. Se a erudição fosse condição básica para a felicidade, deveríamos lutar para que o mundo se tornasse erudito, mas não vejo isto não. A mente só se torna recheada, mas não nos tornamos mais conscientes do que somos. O tempo foi inventado, mas junto, inventou-se a eternidade para contrastar. No abandono diário de tudo aquilo que amamos há de ficar em nós uma migalha que seja de cada objeto amado. E o rio da vida, ora intensamente turbulento, ora calmo e límpido, vai seguindo seu curso, indiferente ao tempo. O mais importante é viver tudo, mesmo com a certeza do perigo, como disse Guimarães. A vida não está a espera da gente em algum lugar, ela está dentro da gente. O que não pode acontecer é nos tornarmos, rio afora, apenas uma semente levada pelas águas. É preciso aportarmo-nos em algum barranco e permitirmo-nos germinar, apesar dos riscos.

Envolvida nesses pensamentos, sinto alguém aproximar-se e ouço a irritante pergunta:

-O que tá fazendo da vida?

Puxa, essa pergunta não! Aí coloco-me inteiramente irônica e respondo:

-Procuro radicais, ora! É isso mesmo, tenho sido caçadora de radicais; de direita, de esquerda e até de centro esquerda ou direita. Já os ataquei quimicamente, mas não consegui dizimá-los. Vejo, apenas, o estrago que fazem na sociedade celular. Eu quero mesmo é pegar o chefão. Consegui pegar um, assim como o Bush pegou o Sadan, mas o meu fundamentalista que não era nem islâmico, nem cristão, apenas um livre radical, não passava de um sósia do chefão e eu fiquei na mão. Enquanto o Bush caça o Bin Laden, eu continuo caçando radicais, mas na verdade estou a ponto de desistir dessa caçada. Pra ser sincera, acabo de desistir.

Afinal, eu, uma anarquista nata, tão livre e radical nos meus vícios, não posso ficar por aí caçando radicais livres! Não fica bem pra mim, ora! Que eles continuem detonando com as minhas células epidérmicas. Resolvi alimentá-los daquilo que os fazem mais fortes! O tabaco, a cana e a cevada. Que vivam em paz meu radicais, tramando contra mim em cada torre, em cada esquina ou caverna do meu corpo. Afinal, eles já fizeram a invasão e o estrago – tentar atacá-los agora é perda de tempo. Que não me faltem o tabaco, a cana e a cevada, ainda que transgênicos, para alimentá-los e a assim, sem culpas, podermos viver em harmonia. Quero vê-los sadios a me devorarem.

A pessoa seguiu, mas ainda pude ouvir: essa mulher tá é louca, coitada!

Socorro Utsch Terra é escritora nata e poetisa de mão cheia no auge dos seus 72 anos.  Mãe de Carolina, da Carina, do Maurício e do Otan, vive com o marido Darlan no interior de Minas Gerais. Agora ela também é colaboradora do Projeto Contrafluxo.

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