A desescolarização, ou melhor, a escola da vida!


Não sei o quão infindável é essa discussão, mas sei o quão particular ela é e chegou batendo na nossa porta já há algum tempo. Antes de contar como lidamos com ela dentro da nossa casa, acho necessário dizer como nos preparamos para recebê-la. Pois foi de peito aberto, com a consciência de que a resposta para nossas dúvidas estaria nas crianças. Antes de pensarmos como a sociedade pensa, como nossos pais pensaram, como o sistema impõe, como nós (eu e Hugo) vivemos a escola, como seria “certo ou errado”, pensamos nas reais necessidades das crianças.

E isso tudo quer dizer sobrepor o bem estar delas ao nosso, coisa que a natureza, perfeita que é, já ensina como condição essencial da maternidade/paternidade antes mesmo das crianças nascerem. Somos pais em tempo integral há quase seis anos e vivemos longe da família ou de qualquer ajuda para educá-los boa parte desse tempo. Traduzindo: estamos mortos com farofa! Mas essa foi nossa escolha desde a gravidez e talvez uma das mais bonitas e certeiras que já fizemos. Já houveram momentos em que o esgotamento bateu forte, mas tão forte, que realmente pensamos em matricular Nina e Tomé na escola, uma tentativa de ter poucas quatro ou cinco horas de "descanso" pra viver o "resto" da vida. Talvez isso fosse sobrepor nosso bem estar ao deles e isso iria na direção contrária do que sempre seguimos. Mas, por outro lado, pais cansados e infelizes não conseguem ser pais completos, e isso também não condiz com a forma que escolhemos viver esse amor sem fim. Somos e seremos de corpo e alma sempre, nossos filhos são passagens de ida pra a plenitude.

Então, como sempre fazemos, deixamos que Tomé e Nina respondessem à nossas inúmeras dúvidas de forma bem natural, mesmo sem saber que uma pergunta tão importante lhes foi feita. E, também como sempre fazem, estão nos trazendo respostas diárias que nos carregam pelas mãos rumo à uma certeza: não, eles não precisam de uma escola tradicional nesse momento! Mas uma infância livre no mato não atende toda a imensidão de demandas dessa fase, precisamos estar juntos no apoio aos estímulos, nas novas descobertas, nos desafios, nos conflitos e tudo mais.

Não sei contar nos dedos quantas coisas lindas Tomé e Nina já aprenderam nestes anos tendo como casa a natureza. Hoje eles te contam sobre plantas medicinais, nome de pássaros e seus hábitos rotineiros, espécies raras da mata, dão conta de reciclar seu lixo, falam sobre o funcionamento das composteiras, ensinam a usar um banheiro seco, plantam e cuidam de si e dos outros. Mas, o mais importante de tudo, ao nosso ver, é a base forte na qual eles vêm construindo sua personalidade, seu caráter: os dias são cheios de liberdade  (que bem anda de mãos dadas com a responsabilidade), o respeito à natureza e ao outro são lições diárias ensinadas por nós e por todas as pessoas que vivem/passam por aqui, a beleza das coisas simples, a riqueza da diferença e da diversidade, a verdade das coisas e das pessoas, o pé no chão e a troca de energias com a terra, a importância do coletivo/compartilhar, a essência do amor genuíno em tudo que nos move.

Mas, em determinado momento, eles começaram a pedir por mais! Daí, o universo, generoso que é conosco, nos trouxe pra viver em um lugar onde outras famílias cheias de crianças lindas também compartilham de tudo isso. Sendo assim, começamos a nos reunir e nos propusemos a mergulhar de cabeça em uma comunidade de aprendizado pudesse ancorar nossos filhos em seus desenvolvimentos. Começamos então, há cerca de três meses, o desafio incrível de estar com 14 crianças de dois a dez anos diariamente dentro desse espaço de desconstrução/construção, ensinamento/aprendizado e mais mil coisas que ainda nem sabemos que nos esperam.

Tem sido uma montanha russa tudo isso, confesso. Mas é imensamente gratificante se jogar em queda livre no propósito de ser um saco vazio pronto pra ser recheado da verdade, pureza e liberdade das crianças. É como se a vida estivesse nos dando a chance de limpar todas as gavetas do peito, aquelas cheias de poeira e condicionamento, para nos aproximarmos da leveza e do amor que os pequenos vibram o tempo inteiro (e que nós somos também). Estamos, no final das contas, pegando o bonde no processo deles para nos reconhecermos nos nossos. 

Esse momento que estamos vivendo em comunidade vai de encontro com o que sempre desejamos no coração: ser pais melhores, mais antenados e proporcionar a Tomé e Nina um ambiente de estímulos além dos que a natureza em que vivem lhes oferece diariamente. Nunca tivemos, eu e Hugo, liberdade para manifestar nossos desejos dentro de uma escola. Não fomos estimulados de acordo com nossas aptidões, não nos foi respeitado o interesse pela arte, pela dança, por qualquer outra coisa que nos identificássemos mais nessa época de descobertas. Não tivemos muitas escolhas e possibilidades nos foram negadas.

A escola nunca potencializou nossas potências, muito pelo contrário, muitas delas foram reprimidas pelas equações matemáticas, químicas e físicas que nunca usamos na vida. Queremos que Tomé e Nina cresçam com muito espaço para manifestar seus dons, seus gostos, suas habilidades,  suas personalidades, suas dificuldades, suas frustrações, seus medos, suas ideias mirabolantes, suas necessidades, sejam elas quais forem. Por isso precisamos, como pais, nos preparar para intensificar esse ambiente de expressões livres, de observações, de atividades multidisciplinares de acordo com o tempo de desenvolvimento deles, do corpo, da consciência, da alma de cada um. Ainda temos um longo caminho pela frente e estamos muito seguros de que não os deixaremos desamparados nesse florescer, estamos decididos a nos preparar, casa dia mais, com muito amor e criatividade para esse momento bonito e extremamente importante.

Não queríamos que as palavras derramadas aqui soassem como um julgamento às famílias que têm seus filhos na escola, que optaram por uma educação tradicional e são felizes dentro desse modelo. Estamos, nesse nosso diário aberto, contando como tem sido pra gente esse momento, falando da nossa família, da forma como nós enxergamos e escolhemos viver esse momento. Respeitamos e admiramos toda forma de educação que carregue em si o bem estar dos pequenos e o desenvolvimento de homens conscientes. Essa é mais uma escolha, estamos escolhendo educar crianças transformadoras, respeitando todo o seu potencial como seres de luz que são. E isso, (in) felizmente, não conseguimos sentir que poderia acontecer dentro das quatro paredes de uma sala de aula, nossos filhos pedem mais verdade e liberdade para ser por inteiro.

Temos um estilo de vida que permite essa escolha, temos o tempo como parceiro nessa viagem, muito respeito pelo mundo que estão descobrindo e construindo. Ainda não sabemos se esse é o caminho certo, mas é o que pulsa dentro da gente agora. E, na real, nada por aqui é para sempre, sabe? Vamos remando nosso barquinho em águas claras, calmas, respeitando o vento que sopra, o ritmo do rio, e navegando rumo à esse encontro bonito por demais, o encontro das nossas crianças com a verdade, o respeito e a liberdade dos seus espíritos.

*Manu Melo Franco é companheira do Hugo, mãe do Tomé e da Nina, aquariana de asas largas, cabeça dura, pés sujos de terra e dona de uma vontade absurda de ser boa parte da mudança que quer ver nesse mundo de meu Deus! Ela colabora com o Projeto Contrafluxo com suas histórias, imagens e sentimentos. Seu blog pessoal é o Notas Sobre Uma Escolha e seu Instagram é @manumelofranco

 

4 Comments