As alegrias e desafios da vida em comunidade


Viver em comunidade é um desafio engrandecedor, vivido dia após dia, com mil curvas por segundo. Quando saímos da Chapada Diamantina, depois de um ano imersos em nossas próprias vivências, estávamos sedentos por compartilhar, por trocar, por viver com outras pessoas e aprender sobre coletividade. Pois bem, aqui estamos nós remando, há quase dois anos, no mar sem fim que é o outro.

Moramos em uma fazenda abraçada pela Mata Atlântica, a poucos quilômetros da praia, na Bahia que é terra de todos os santos. Aqui somos cerca de 12 famílias que foram chegando, cada uma a seu tempo, sem a expectativa ou pretensão de construir uma comunidade "formal". As pessoas se conhecem e interagem de forma muito natural, orgânica e bonita. Hoje temos vinte crianças que ocupam a fazenda de forma incrível! Seus movimentos, seus sons e barulhos, suas cores, sua alegria, tudo compõe a dança de uma infância livre/consciente a qual oferecemos com muita gratidão no peito. 

Em diferentes níveis de intensidade e leveza, nós e as crianças compartilhamos ensinamentos quase que diários sobre como ser parte integrante de um todo que pulsa diferenças e exige doses cavalares de respeito para cada uma delas. Apesar de termos muitos sonhos comuns, ainda não nos encontramos na força coletiva da realização de muitos deles. Já tentamos uma horta coletiva e não de certo, uma marcenaria coletiva que não fluiu, etc. Tudo isso me causou um imenso sentimento de frustração há algum pouco tempo atrás, confesso. Mas foi esse sentimento amargo que me trouxe a doçura de outro muito mais importante: o entendimento/aceitação de que vivemos tempos e contextos diferentes, que ter os mesmos sonhos não quer dizer ter a sincronia  exata de muitos relógios. O primeiro passo para viver o outro em paz talvez seja o respeito ao que ele é e pode dar naquele agora. 

Na educação dos nossos filhos acontece um pouco desse descompasso também. Mas esse eu logo aceitei, jogando pela janela o ideal de crianças se desenvolvendo com conceitos e valores harmônicos entre si. Se somos famílias diferentes, se vivemos hábitos diversos, se viemos de culturas distintas, como pude eu esperar que as crianças trouxessem igualdade? Jamais! Então decidimos nos debruçar no respeito, fortalecendo em nos é nos pequenos a importância de nos respeitarmos. Outro dia Tomé chegou em casa dizendo que precisava de alguma coisa para dar aos amigos e conseguir que eles entrassem na brincadeira que ele estava propondo. Isso nunca tinha acontecido, já logo percebemos que esse era o comportamento de uma outra criança virando prática entre eles. Então sentamos e conversamos com Tomé, explicando a diferença entre dar um presente de coração e "comprar" uma pessoa, prática com a qual não concordamos. E daí a conversa fluiu por vários caminhos e foi lindo, respeitamos os valores do outro sem deixar de reforçar os nossos. E muito mais, cada dia uma novidade trazida por outras famílias que nos faz ancorar a força do que acreditamos e queremos para a nossa, seja pela igualdade ou pela diversidade. 

Neste momento estamos vivendo o começo de uma aproximação muito bonita enquanto coletivo e, como não poderia ser melhor, ele é trazido pela necessidade das próprias crianças. Nos encontramos no espaço comum de construir a "educação" delas de acordo com sonhos nos quais acreditamos. Estamos assim nos propondo a conversas incríveis, compartilhamentos, apoios, alinhamentos, questionamentos e tudo mais que nos move para criar uma comunidade de aprendizado que contemple a todas as famílias e suas singularidades. 

Um primeiro passo, como se estivéssemos fazendo o exercício de nos enxergar individualmente para depois nos sentirmos plenos enquanto coletivo. Um caminhar longo e intenso que mostra o outro como nosso espelho diário, com toda a beleza e força que em tudo isso há! Um olhar puro e verdadeiro para questões humanas e essenciais, como as bordas de espaços físicos e emocionais, como as trocas de coração aberto, como o reconhecimento dos nossos limites e dos outros, como os exercícios de falas amorosas e ouvidos atentos, como reconhecer momentos pelo silêncio de olhares.

Estamos felizes com tanto aprendizado, sentimos que não há melhor caminho para conhecermos a nós mesmos do que o outro com quem escolhemos compartilhar a construção constante do que somos! 

*Manu Melo Franco é companheira do Hugo, mãe do Tomé e da Nina, aquariana de asas largas, cabeça dura, pés sujos de terra e dona de uma vontade absurda de ser boa parte da mudança que quer ver nesse mundo de meu Deus! Ela colabora com o Projeto Contrafluxo com suas histórias, imagens e sentimentos. Seu blog pessoal é o Notas Sobre Uma Escolha e seu Instagram é @manumelofranco

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