Não deixe o medo guiar sua vida


Existem dois momentos na vida em que duas perguntas, teoricamente simples, são feitas para nos empurrar um passo a dentro da caixinha do sistema. Me lembro bem de inúmeras vezes em que tive que responde-las, mesmo sem ter a mínima ideia do que estava falando. Quando somos crianças, ainda um saco vazio da constância da vida adulta, chega a primeira delas: o que você quer ser quando crescer? E a gente responde a profissão dos pais, dos avós, de alguém que se admira ou astronauta. Somos então, empurrados a acreditar que temos que ser alguma coisa para pertencer a este mundo. Ninguém responde coisas do tipo: ah! Quero ser um adulto saudável, ser uma pessoa amada, ser alguém que ajuda os outros, nada disso. Depois, quando mais velhos, a pergunta chega embutida de cobranças e expectativas: o que você faz da vida? E a gente responde: eu trabalho com engenharia civil, minha esposa é médica, moramos no bairro tal e temos tantos filhos. Ninguém responde: eu cuido de mim e dos meus, eu busco ser uma pessoa justa dentro do que acredito, eu gosto de aprender cada dia mais, eu sou feliz ou não, etc. Grosseiramente falando (e morrendo de preguiça dessas perguntas), essas são questões com respostas prontas e, caso você se atreva a fugir do esperado, você tá muito fora do 'normal' ou é uma espécie de fracasso.

Hoje, depois de já ter sido bem 'normal', não me preocupo mais em ter respostas para as expectativas do sistema. Na real, quero mais é me despir e poupar meus filhos das cobranças que o mundo nos faz sutilmente em diferentes canto da vida. Cada resposta condicionada arranca da gente um pedaço da liberdade que somos e nos coloca mais próximos do que o sistema quer que sejamos. E tem o medo, esse que a sociedade injeta na gente em doses cavalares, medo de não ser alguém na vida, medo de não ter o que o outro tem, medo de não conseguir sucesso, medo de não ter muito dinheiro, medo de ser diferente, medo de ser o que a gente acredita que pode e quer ser. O medo, ao meu ver, é a maior e mais eficiente arma de coerção que o sistema capitalista trouxe pra essa batalha. É pelo medo de romper zonas de conforto condicionadas que deixamos pra trás um mundo de possibilidades inventadas. E seguimos, em marcha fúnebre, fila indiana, cegos, nos guinando pelos passos que o cara da frente da, sem nem saber pra onde estamos indo, cumprindo metas, acumulando coisas, respeitando leis com as quais não concordamos, em silêncio, opacos, seguindo o fluxo daquilo que, por vezes, nem foi nossa escolha.

 

Mas a sensação que tenho é que, pouco a pouco, essa fila indiana interminável está perdendo um bocado de gente e eu morro de alegria assistindo tudo aqui do mato! Daí vem o contrafluxo, esse barco massa que navega no mar do agora. Nele, o passado/presente/futuro sem misturam entendendo que o tempo é um espiral de incontáveis voltas pra gente se encontrar e se perder, o importante é estar presente no agora em que as coisas acontecem. Tomé e Nina tem me ensinado muito sobre isso, sobre a presença que vai além do estar ao lado fisicamente. As crianças têm muito disso, se você não está por inteiro com elas, não está. E a vida perde metade da graça quando a gente vive um momento pensando no que vem pela frente. O que eu vou ser quando crescer não vale nada se eu não sou a verdade do que sou agora. Por isso também tanta beleza nessa maré de contrafluxo, porque as pessoas estão jogando pela janela o medo de não ser/ter no futuro. Porque estão ancoradas no agora e entregues à plenitude de cada momento presente.

Sinto que é bem isso que vivemos hoje aqui na bolha verde, ainda com pequenos ajustes ali e acolá, mas sempre com a mente e o coração firmes no entregar, confiar, aceitar e agradecer. O que sonhamos para nossa família daqui a dez anos é um plano bom que vamos construindo um dia após o outro. Nada do que somos ou temos hoje é regido pelas exigências cruéis do sistema capitalista para um casal com dois filhos pequenos, mas pelo respeito ao que acreditamos e buscamos enquanto pessoas unidas pelo amor maior do mundo. O que vai ser amanha não nos preocupa, estamos mais conectados com o que estamos sendo agora, neste instante em que estamos entregues ao que nos está sendo oferecido pelo universo. Parece que tudo ganha mais sentido dessa maneira, estar inteiro todo dia nos dá a sensação boa de que a vida é bem mais larga do que nos foi contado. E seguimos alertas, desconstruindo o que ainda nos resta de tudo o que nos foi imposto desde pequenos, tentando nos tornar sacos vazios outra vez, por mais foda que isso seja depois de tantos anos cheios de coisas vazias. Sem medo, sem pressa, em queda livre, arriscando com coragem, reinventando o tempo e as formas de crescer com ele. Seguimos, acima de tudo, expandindo nossa consciência para não cairmos nas armadilhas sutis do sistema, fazendo nossas pequenas revoluções internas e diárias, buscando o equilíbrio entre o que fomos lá fora e o que estamos sendo aqui dentro dessa nova era, até que sejamos plenos e atemporais, até que voltemos a ser só a verdade das nossas próprias essências.

*Manu Melo Franco é companheira do Hugo, mãe do Tomé e da Nina, aquariana de asas largas, cabeça dura, pés sujos de terra e dona de uma vontade absurda de ser boa parte da mudança que quer ver nesse mundo de meu Deus! Ela colabora com o Projeto Contrafluxo com suas histórias, imagens e sentimentos. Seu blog pessoal é o Notas Sobre Uma Escolha e seu Instagram é @manumelofranco

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