Até há pouco tempo atrás não me lembrava de ter sido vítima de nenhum assédio, mas isso nunca trouxe a certeza de que, de fato, teria passado trinta e tantos anos da vida longe dessa agressão. Daí, um belo dia, numa conversa despretensiosa com um amigo/irmão, ele me contou sobre um projeto pessoal de documentário que estava começando com mulheres que já foram abusadas. A conversa terminou com ele me convidando para participar depondo sobre o assunto também. Balancei a cabeça fazendo que sim e fui embora. Já logo ao fechar o portão da casa desabei no choro, porque senti aquele convite ardendo ao abrir a gaveta das memórias escondidas sobre meus assédios. O mundo inteiro fala disso, as redes sociais discutem isso, as amigas gritam isso, a sociedade acordou pra isso, eu acompanho em alerta tudo isso, mas nunca tinha tido coragem de me olhar intensamente dentro disso. Foi foda, está sendo. Desde então, faço viagens incontáveis para dentro das minhas lembranças buscando onde e como mora em mim o feminino e o masculino que sou.

Lá na infância encontrei a primeira pista, uma cena guardada na escuridão do medo de ser tocada contra minha vontade, sem nenhuma inocência ou doçura das brincadeiras infantis. Era uma menina. Daí fui fazendo o caminho linear do tempo e caí na adolescência, quando a maioria dos amigos eram homens e poucas amigas mulheres, estas que estão comigo até hoje e vieram pra ficar. Sempre me senti muito protegida por essa turma e nunca sofri qualquer desrespeito vindo deles. As cantadas escrotas nas baladas, as palavras sujas nas festas de rua, os olhares agressivos e sedentos sempre me causaram incômodo sim, mas sempre revidei com o atrevimento e a força da não aceitação pela violência verbal. O silêncio e o medo nunca se fizeram maiores do que a legitimidade do respeito que toda vida acreditei merecer enquanto mulher. Tive a sorte de nada mais grave ter chegado até a mim para enfraquecer estes pilares, bem diferente de milhões de mulheres que sofreram e sofrem a crueldade do assédio sexual e emocional ainda em tempos de construção de uma nova era. Por vezes, isso me soa tão absurdo que beira o inacreditável.

Hoje vivo isolada de muitas das atrocidades sociais e isso me rouba o direito de julgar qualquer tipo de luta, manifestação ou experiência que vivem as mulheres “lá fora”, eu não sinto na pele o que elas sentem. Minha escolha de vida me protege disso, mas não me tira o olhar fixo para tudo o que acontece neste universo e me mantém alerta no front porque somos uma, porque respeito não tem sexo nem limite de espaço físico, ao menos não deveria ter. Então, ainda sentindo na boca aquele gosto amargo que senti ao abrir a gaveta das memórias, me vejo vivendo outros tipos de assédio (porque entendo que nessas sete letras mora uma infinidade de significados) recorrentes aqui, na bolha verde, longe do mar de ameaças que a cidade abriga. E, sem a necessidade de medir se é melhor ou pior do que o que rola lá fora, o que acontece aqui dentro corta feito faca afiada minha essência feminina. Isso porque as responsáveis pelos assédios que vivo hoje são, em sua maioria e infelizmente, eu mesma e outras minas.

Me explico (até onde eu consigo, porque nadar em um rio de feridas mau curadas cansa e dói por demais): não é segredo pra ninguém que vivo um relacionamento aberto com meu companheiro há anos, isso quer dizer remar para ficar forte e, ao mesmo tempo, se deixar levar pela leveza das águas fluidas do amor pleno e infindável. Nesse cenário entram e saem algumas pessoas, homens e mulheres. E o que se mantém com permanência inabalável é um casal, duas crianças, uma família bonita e forte. Durante muito tempo me debati com questões relacionadas à outras mulheres dentro desta história, demorei um tanto pra conseguir olhar tudo de fora e separar o que era meu, do outro, do ego, da razão, do coração. Abrimos nossas vidas, nossos corações e nossa casa para outras pessoas, mas isso não quer dizer que elas precisem chutar a porta nessa chegança.

Daí vem os assédios que vivo: quando eu permito que outra mina se aproxime querendo ocupar os espaços de alguém na família (só pra não soar como machismo meu, eu também me relaciono com elas, posso me apaixonar por uma por dia!) estou dizendo sim para uma atitude com a qual não concordo, seja lá por qual razão, estou contudo aceitando um comportamento que jamais me permitiria ter. Dessa maneira, a agente ativa do assédio aqui sou eu mesma, jogando pra escanteio o respeito ao meu próprio espaço feminino, sofrendo com isso, deixando que a energia de outra pessoa se esparrame quebrando a harmonia do relacionamento e, na sequência, de toda a família. Quando outra mina se aproveita desta abertura para invadir, disputar, desrespeitar, nos expor ou causar, ela está rompendo as bordas do limite e atropelando uma outra mina. Aqui eu vejo uma mulher assediando, emocionalmente, a outra. E sim, os dois exemplos e muitos outros acontecem com mais frequência do que gostaria, tanto que meu maior desafio neste momento é saber como lidar com tudo de forma realmente clara e imparcial, buscando entender o que é rasteira do meu ego e o que é desrespeito ao que sou e acredito nesta vida. Um belo de um exercício de paciência e neutralidade, onde não se pode vacilar e colocar a culpa rodopiando no meio do salão. Culpa não existe.

Daí você me pergunta aonde estão os caras nesse embolar de coisas, se não tem assédio nenhum vindo desta parte da história. Tem também, sejamos justos até o fim! Mas, neste agora, tô buscando entender as coisas dentro de mim desde a essência e essa é feminina, apesar de honrar a porção masculina com muito amor. Me dá um nó no estômago rolar a timeline do Facebook e ver tantas mulheres de peito de fora, batendo panela nas ruas, gritando por respeito/direitos e, na manhã seguinte, ver as minas se debatendo publicamente porque o cara era de uma e foi sacanagem essa transa na noite passada com a outra, ver as minas chegando na energia da disputa e se armando de desaforos para camuflar o desrespeito pelo seu igual, sentir as minas preferindo calar ou culpar as outras à enfrentar a invasão do seu espaço sagrado enquanto mulher. Acho que é disso que eu tô falando, da dificuldade da gente se acolher enquanto manas, mais do que só minas, saca? Da gente ser aquilo pelo que a gente grita na sociedade, da gente estar sempre alertas em nossas relações para que não nos escondamos no rótulo de vítimas do machismo e do assédio masculino toda vez que nosso feminino for violentado. Somos tão fortes que podemos ser, ao mesmo tempo, agressoras de nós mesmas e de outras mulheres. E isso é foda de perceber quando já estamos condicionadas a um passado triste e violento como o que a nossa cultura viveu. A gente precisa ser aquilo que queremos para poder legitimar, por referência e inspiração, o que esperamos do outro.

Ainda não sou 100% a prática de tudo o que penso hoje, além de entender que amanhã tudo pode virar de ponta a cabeça no meu pensamento. Mas caminho a passos lentos e fortes rumo à imensidão que é o universo feminino, tentando acolher todas as fraquezas e celebrando toda a beleza que nele há dentro de mim e no outro. Aqui na comunidade onde moro tenho aprendido um tanto sobre esta irmandade das mulheres acima de toda e qualquer diferença. Acho que porque escolhemos estar entregues à sorte de vivermos juntas na natureza, no colo da mãe terra, no útero do universo, onde vibra toda a generosidade do feminino mais intenso que eu consigo entender. Aqui, quando uma mana tá fora do eixo, a outra chega junto pra aplicar um rapé e realinhar as energias, daí a outra faz giras de dança pra todo mundo se curar pelo movimento do corpo, a outra chama pra caminhar na praia e conversar perto de Iemanjá, a outra cuida dos seus filhos para você viajar sozinha com seu companheiro. Tenho aprendido muito sobre as sutilezas do cuidado feminino, esse que gera o respeito admirável, que cria a conexão verdadeira, que leva ao amor incondicional. E eu quero mais, ainda falta muito pra ser a mulher que meu feminino quer e pode ser.

É tanta coisa pra descobrir, desembolar, aceitar e contornar que chego a ficar tonta quando entro nesse brejo do meu peito. Então, pra terminar este devaneio/desabafo infinito, deixo aqui todo o meu orgulho e admiração pelas mulheres que estão lá fora, em outro contexto, buscando a verdade do que acreditam, negando assédios violentos, lutando pelo respeito e dignidade que lhes foi roubada, quebrando silêncios, reafirmando a força do não e, antes de tudo, se reconectando com a beleza das mulheres que são. Estamos em contextos diferentes, mas remamos o mesmo barco, sempre. Enquanto sigo meu caminho por aqui, me ancoro na única certeza a qual nunca quero perder de vista nesta maré de desconstruções/reconstruções: a certeza de que nós, mulheres, somos como águas, cresceremos sempre mais quando nos encontrarmos.

*Manu Melo Franco é companheira do Hugo, mãe do Tomé e da Nina, aquariana de asas largas, cabeça dura, pés sujos de terra e dona de uma vontade absurda de ser boa parte da mudança que quer ver nesse mundo de meu Deus! Ela colabora com o Projeto Contrafluxo com suas histórias, imagens e sentimentos. Seu blog pessoal é o Notas Sobre Uma Escolha e seu Instagram é @manumelofranco

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