O Tempo dá, o Tempo tira, o Tempo passa e a folha vira


Quantos de nós, atualmente,  não vive sob as pressões da ansiedade ou debaixo das demandas da depressão, quase nunca satisfeitos com o que há aqui e agora? Em menor ou maior graus de sensibilidade e sentimentos, basta uma roda de conversas um pouco mais profunda para perceber que o lidar com o tempo é algo que procuramos cada vez mais.  Mesmo que sejam incansáveis as respostas, sabemos que sobre o tempo, nós não teremos o controle. O Tempo é tão importante no Candomblé que é considerado um Orixá. Não importa de fato o que ou quanto estamos fazendo, desejando, movimentando. Quem determina o que acontece ou não é só o tempo.

Esta mudança de cidade, de ritmo, de um tanto, enfim, trouxe experiências intimamente relacionadas à forma como me relaciono com o tempo, mais por necessidade do que por desejo. A começar pela rápida e rasteira decisão daquele que se dizia meu companheiro enquanto habitávamos cidades diferentes em romper nossa convivência como casal – no primeiro dia de casa nova, literalmente. Respira, aceita, respira, chora, respira, fica com medo de que aquilo é um sinal, respira... absorve o tempo e absolve a alma, o controle não é possível.

Segundo momento, vale saber que de todos os movimentos que me trouxeram pra uma cidade litorânea o que mais garantia alguma estabilidade é o desenvolvimento de meus afazeres profissionais, estes que germinam o sustento. Trabalho com e pela internet. Sabido isso, imagina o sufoco que foi, pra mim, entender os quase 30 dias entre o pedido de uma linha fixa (pois é, não existe fibra ou outra alternativa no meu bairro) e a instalação da internet de, respira, entende, respira, aceita, 2 mega. Relembro dos cancelamentos por erros sistêmicos, do pedido de documentos absurdos por estar em uma área considerada “de comunidade”, logo o perigo na instalação e risco de fraude, um stress tamanho por estar sem produzir que me levou algumas vezes às lágrimas. Hoje percebo o quanto foi relevante a lição de que determinadas coisas não acontecem no meu tempo, mas no tempo do Tempo.

Ficar sem internet me trouxe outra relação com o tempo. A retomada da leitura, das práticas mais solitárias, o prazer em cozinhar com menos pressa de me manter conectada. O sono de qualidade, sem interferências e sem uma tela brilhante frente aos olhos. O conversar por voz, tão raro na era do  WhatsApp. O contato comigo mesma, com minhas aflições e medos, com meus sorrisos e alegrias, o negociar interno com as expectativas. Viver esta mudança me fez pensar se todas as escolhas que fiz estavam equivocadas, erradas mesmo. Onde eu estava com a cabeça pra sair de São Paulo pra Ubatuba assim?

Respira, entende, respira, respira... dorme, experimenta a insônia, come bem, come mal, não come. Passou, transformou, progrediu. Não foi tão rápido assim. Tampouco tão demorado a ponto de encaixar no julgamento de que perdi o tempo disso, pra isso, com isso. Foi no tempo que o Tempo desejou que fosse. E isso, ah, veja bem: não há como ser controlado, nem por mim, nem por ninguém.

*Mari Nassif é jornalista que trabalhou com relações públicas em São Paulo por um longo tempo, e agora encontrou sua verdadeira natureza: a cura por meio do reencontro. Formada em teologia, trabalha com o invisível como aliado para amadurecer o auto-amor (em si e nos outros). Atua como terapeuta floral, produz magia com ervas na Banhô e está de malas prontas para uma vida nova em Ubatuba.

 

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