À procura da pílula da felicidade


Há alguns anos atrás, numa época de angústias, desequilíbrio emocional e muito estresse no trabalho me vi num quadro de depressão.  Vivia nervosa, mal humorada e muito agressiva. Tive crises de pânico e de ansiedade várias vezes e, depois de muito relutar, fui em busca de tratamento psiquiátrico. Na consulta, o doutor me ouviu rapidamente, diz que eu estava deprimida e receitou dois remedinhos para o controle da emoções, para ajudar a mente a se fortalecer e com isso eu conseguir sair da depressão. A receita médica dizia: tomar um comprimido de Lexapro (anti depressivo) ao acordar e um comprimido de Rivotril (ansiolítico) para dormir. E de um dia para o outro estava na estatística de pessoas que vivem a base de remédios controlados.

Os primeiros dias com a medicação foram maravilhosos. Logo pela manhã, depois do primeiro Lexapro, fui trabalhar e me sentia flutuante, calma e inabalável pelos problemas do dia a dia. A noite, me sentia mais leve ainda porque bastava um pequeno comprimido para espantar a insônia e me fazer dormir profundamente por 12 horas seguidas.  Mas o que aconteceu nas semanas sequentes foi simplesmente um nada. Comecei a me sentir apática , sem emoções, sem reações, com um sorriso de plástico no rosto o dia todo. Nada me atingia. O vazio total tomou conta de mim. O pior veio logo depois. Diante dessa nova vida sem graça, senti vontade de voltar a sair de casa e beber com meus amigos. Sabendo da minha vida boêmia, o médico havia me receitado justamente um anti depressivo, na época dito como inovador, que poderia ser consumido junto com bebidas alcoólicas. Com essas informações, voltei a beber vinho nos fins de semana. E o que veio na sequência dos fatos foi devastador.

A combinação de remédios e álcool funcionou como uma bomba na minha mente, no meu organismo e consequentemente nos meus atos. Ficava completamente louca, fora de mim, perdia a memória e fazia coisas insanas. Conturbada quimicamente, comecei a ter surtos frequentes. Uma vez, num domingo de ressaca, enlouquecida, quase coloquei a casa abaixo. Fui socorrida por amigas queridas que me contaram, dias depois, o que havia ocorrido. Foi chocante para mim ouvir toda aquela história e as coisas terríveis que tinha feito e dito. E o mais impressionante de tudo era que eu simplesmente não me lembrava de nada e nem o porquê do começo do surto.

Foi assustador perceber que eu estava perdendo totalmente o controle da minha própria vida e colocando a vida das pessoas próximas de mim em risco. Foi aí que minha ficha caiu e decidi largar os remédios e procurar ajuda em atividades que me proporcionavam leveza de uma forma menos química. Me encontrei na yoga, que me trouxe mais autoconhecimento, essencial pra enfrentar esse mundo cruel que se instalou na nossa sociedade. Hoje vivo bem e feliz há mais de 5 anos sem nenhum tipo de medicação psiquiátrica. Agora, quando me peco indo pro caminho da depressão, consigo interpretar meus sentimentos com mais consciência e procuro fazer coisas que me promovam bem estar, alegria e tranquilidade, como atividade físicas e meditação.

Veja bem, não quero aqui fazer menosprezar os sintomas da depressão e muito mesmo prescrever uma fórmula da cura e da felicidade. Acho que a nossa sociedade está doente sim, mas queria alertar sobre o uso exagerado de medicação pesada que é feito, muitas vezes de forma irresponsável, tanto por médicos como por pacientes. Ao longo das últimas duas décadas, o uso de antidepressivos disparou. Atualmente, um em cada 10 americanos toma medicação antidepressiva; entre as mulheres na faixa dos 40 e 50 anos, o número é de 1 a cada 4. "Não se trata apenas de os médicos estarem prescrevendo mais. A população tem pedido mais medicamentos", disse Dr. Ramin Mojtabai, professor associado da Escola Johns Hopkins Bloomberg de Saúde Pública. "Sentimentos de tristeza, o estresse da vida diária e problemas de relacionamento podem causar sentimentos de perturbação ou tristeza que podem ser passageiros e não durarem muito tempo. Entretanto, os americanos têm tomado cada vez mais antidepressivos para enfrentar esses sentimentos". A Faculdade Holandesa de Médicos de Clínica Geral recomendou que seus membros prescrevessem antidepressivos só em casos graves e, em vez disso, oferecer tratamento psicológico e outras formas de apoio na vida cotidiana. Autoridades observaram que os sintomas depressivos podem ser uma reação normal, passageira, de decepção ou perda.

A verdade é que não existe pílula da felicidade. Eu consegui mudar meus hábitos para ter uma mente e um corpo mais saudável, através de um esforço alto para me autoconhecer. Troquei o coquetel de remédios por meditações que elevam a alma e tranquilizam o coração. Assim, hoje eu acordo com o Gayatri Mantra, e durmo com um o som de bowls tibetanos. E acredito que a busca por autoconhecimento, seja ela qual for, é o melhor caminho para termos uma vida melhor.

* Christiana Bernardes é jornalista e cineasta que atua no mercado audiovisual há mais de 15 anos em São Paulo. É film maker, mãe da Ana, idealizadora do Projeto CONTRAFLUXO e pretende passar resto da vida compartilhando histórias transformadoras de pessoas que saíram do lugar comum. Está numa busca eterna por um viver melhor, sem excessos e com mais consciência. 

 

 

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