Das palavras que me acompanham desde que me percebi vivenciando e aprendendo sobre uma vida mais slow, a segunda delas (estreei aqui com o equilíbrio) é a transição. Porque ainda estou nela e ainda estarei, já que das únicas certezas que temos é que tudo muda, constantemente, incluindo a nós mesmos, não é? E fico feliz por isso, pois assim podemos evoluir a cada dia, o pouco que seja. Quero melhorar a mim mesma para tornar mais positivas minhas relações com as outras pessoas e com o mundo.

Mas posso falar também sobre uma transição principal, mais intensa, que foi a que me marcou de verdade passando de uma vida muito acelerada e consumista a um propósito pessoal e profissional com total base no slow living. E disso tudo, claro que questões comportamentais não teriam ficado de fora. Afinal, buscas relacionadas à consciência nos trazem verbos imprescindíveis, como por exemplo o questionar e o refletir. E daí me vi perguntando por que comprava tanto, por que tantos conflitos, por que tantos vazios preenchidos – momentaneamente, claro - usando fatores externos. Porque podemos tapar com a peneira o quanto for, mas uma hora a verdade chega para nos confirmar que é só por dentro mesmo que conseguimos uma maior leveza nos entendimentos de nós mesmos e da vida.

Lendo um livro que me ajudou muito nesse processo, o “Novo Mundo – O Despertar de Uma Nova Consciência”, do Eckhart Tolle (Sextante, 2007) – que é uma mistura de  espiritualidade, autoconhecimento, psicologia (e não, não é auto ajuda barata, pelo menos não a meu ver) – tive contato com o termo ego coletivo, novidade para mim e que pode ser para você também. Dando um passo anterior, quando abordamos o ego individual, de acordo com o próprio autor, temos uma identificação com os nossos pensamentos. O ego é uma identidade, um eu imaginário que nos é útil como parte de nossa personalidade e vida em sociedade, mas que também nos traz as mazelas da separação, individualidade, comparação, competição. E quando estamos inconscientes dessa parte da nossa mente, seguindo no piloto automático a maneira como a sociedade se manifesta atualmente, projetamos o nosso propósito ao ter, ao status, acúmulo, excessos...  E então chegamos ao ego coletivo, um sintoma que, ao clarear, pode ser tão importante para tomarmos consciência sobre a mecânica dos comportamentos conflituosos no dia a dia. Como Eckhart enfatiza: “Pode ser doloroso acordar de repente e perceber que a coletividade com a qual nos identificamos e para a qual trabalhamos é, na verdade, insana“.  

E ainda segundo ele, quais seriam a motivação e o mecanismo de defesa do ego coletivo? “Medo, cobiça e desejo de poder são as forças motivadoras psicológicas que estão por trás não só dos conflitos armados e da violência envolvendo países, tribos, religiões e ideologias, mas também do desentendimento incessante nos relacionamentos pessoais. Elas produzem uma distorção na percepção que temos dos outros e de nós mesmos. Por meio delas, interpretamos erroneamente todas as situações, o que nos leva a adotar uma ação equivocada para nos livrarmos do medo e satisfazermos nossa necessidade interior de alcançar mais, um poço sem fundo que nunca pode ser preenchido. Lembrando que nem toda atitude de defesa e conflito é egóica, afinal há ativismos justos e os comportamentos de grupo fazem parte da ecologia da vida”.

A partir do momento em que vamos iluminando esses inevitáveis pontos, parece que vamos conseguindo enxergar, acima de nós mesmos e de nossos pensamentos, o desenrolar da vida. Porque a mente não é o nosso eu interior, ela nos prega surpresas. Porque o ego quer agir na surdina, para estar sempre no controle, sem que a gente nem saiba de sua existência ou que simplesmente o deixemos dominar. E então, ao invés de reagirmos inconscientemente – e negativamente, grandes chances - a cada situação, uma visão diferente nos indica o que na verdade significa aquela situação ou conversa, atitude. Penso que seria muito interessante e produtivo, para o bem de todos, incluindo do mundo, se falássemos uns aos outros: “Olha, eu te entendo, mas na verdade é o seu ego que está agindo agora, então pode ser mais saudável trilharmos por outro caminho...”, rs!

E finalizo com uma abordagem para lá de positiva. Seja com a nova era de saturno ou com a nossa própria percepção de que tudo está mudando, e que muitas evoluções têm se desenvolvido cada vez mais rápido, em todas as áreas da vida, Eckhart Tolle também se encontra aqui: a abordagem desse livro é exatamente sobre a chegada de uma nova era, baseada justamente na superação do ego como existe hoje, em prol do que chama de uma nova consciência. Novo mundo, transformar!

Outra fonte para esse texto foi o site Dharmalog, de autoconhecimento, que publicou trechos do livro e eu os repasso aqui para que a gente possa entender um pouco mais sobre esse assunto que, por ser inerente a todos nós, por isso mesmo vejo como uma responsabilidade pessoal que possamos superá-lo da melhor e mais clara maneira. E sem olhar apenas o peso de uma tarefa a ser cumprida, já que os benefícios que vêm dessa percepção são os mais sublimes e essenciais possíveis: amor, compreensão, bons relacionamentos, parcerias verdadeiras, confiança, união, equilíbrio. Uma transição permanente que nos presenteia com uma vida mais significativa, leve e feliz.

“Até que ponto é difícil viver consigo mesmo? Uma das maneiras pelas quais o ego tenta escapar da insatisfação que tem em relação a si próprio é ampliando e fortalecendo sua percepção do eu. Ele faz isso identificando-se com um grupo, que pode ser um país, um partido político, uma empresa, uma instituição, uma seita, um clube, uma turma, um time de futebol, etc.

Um ego coletivo manifesta as mesmas características do ego pessoal, como a necessidade de enfrentamentos e inimigos, de ter ou fazer mais, de estar certo e mostrar que os outros estão errados, etc. Cedo ou tarde, essa coletividade entrará em conflito com outras coletividades porque busca inconscientemente o desentendimento e precisa de oposição para definir seus limites e, assim, a própria identidade. Depois, seus integrantes experimentam o sofrimento, que é uma conseqüência inevitável de toda ação motivada pelo ego. A essa altura, eles podem despertar e compreender que seu grupo tem um forte componente de insanidade.

Pode ser doloroso acordar de repente e perceber que a coletividade com a qual nos identificamos e para a qual trabalhamos é, na verdade, insana. Nesse momento, há pessoas que se tornam cínicas ou amargas e, daí por diante, passam a negar todos os valores, tudo o que vale a pena. Isso significa que elas adotam rapidamente outro sistema de crenças quando o anterior é reconhecido como ilusório e, portanto, entra em colapso. Elas não encaram a morte do seu ego; em vez disso, fogem e reencarnam em outro.

Um ego coletivo costuma ser mais inconsciente do que os indivíduos que o constituem. Por exemplo, as multidões (que são entidades egóicas coletivas temporárias) são capazes de cometer atrocidades que a pessoa sozinha não seria capaz de praticar. Vez por outra, os países adotam um comportamento que seria imediatamente reconhecido como psicopático numa pessoa.

À medida que a nova consciência for surgindo, algumas pessoas se sentirão motivadas a formar grupos que a reflitam. E eles não serão egos coletivos. Seus membros não terão necessidade de estabelecer sua identidade por meio deles, pois já não estarão procurando nenhuma forma para definir quem são. Ainda que essas pessoas não estejam totalmente livres do ego, elas terão consciência bastante para reconhecê-lo em si mesmas ou nos outros tão logo ele se manifeste. No entanto, será preciso estar sempre alerta, uma vez que o ego tentará assumir o controle e se reafirmar de qualquer maneira. Dissolver o ego humano trazendo-o à luz da consciência – esse será um dos principais propósitos desses grupos formados por pessoas esclarecidas, sejam eles empresas, instituições, escolas ou comunidades. Essas coletividades vão cumprir uma função importante no surgimento da nova consciência. Enquanto os grupos egóicos pressionam no sentido da inconsciência e do sofrimento, as agremiações esclarecidas podem ser um vórtice para a consciência que irá acelerar a mudança planetária”.

* Bruna Miranda é jornalista e escritora e se inspira na busca por um viver mais consciente e significativo. É idealizadora da plataforma Review e da revista Guia Slow Living e percebe o slow como porta de entrada e fortalecimento para benefícios e transformações para o mundo, além de nos sintonizar a nós mesmos e ao meio como um todo.

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